Enquanto recursos do programa “Mais Produtivo” eram liberados para empresários nos últimos dias de 2025, uma cena distinta se desenrola no campo da agricultura familiar: caminhões parados, produção encalhada e rostos marcados pela frustração. Uma cooperativa responsável pelo transporte vital da produção de pequenos agricultores completa dois meses sem receber da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR), comandada por Beatriz da Silva Barros Braga. O atraso, mais do que um número, representa a ruptura de uma cadeia essencial.
A cooperativa, cujo nome foi preservado a pedido dos agricultores por temor de retaliações, é o elo entre a colheita e a comercialização. Sem o repasse da SDR, o serviço de transporte está comprometido. “Estamos usando o pouco que temos em caixa para combustível e manutenção, mas não sabemos até quando. Se parar, nossa produção apodrece na roça”, desabafa um produtor de hortaliças, que pediu anonimato. A revolta é geral: são famílias que dependem da venda diária e semanal para seu sustento, agora com a renda estrangulada pela burocracia ou pela escolha política da secretaria.

O contraste é gritante. De um lado, o pagamento pontual a um programa voltado a aumentar a produtividade, frequentemente acessado por médios e grandes empresários rurais. Do outro, o esquecimento de um serviço básico e estruturante para a agricultura familiar, que é responsável por colocar a maior parte dos alimentos frescos na mesa da população. A priorização levanta um questionamento ético e operacional: qual o critério usado pela SDR para honrar seus compromissos?
“É um desrespeito que corta as pernas de quem já trabalha com tudo no limite”, afirma a presidente da cooperativa afetada. “Parece que quem move o prato de comida de verdade é invisível. Enquanto isso, os que já têm estrutura e capital são servidos primeiro”, critica. O atraso gera um efeito cascata: produtores não conseguem escoar, feiras podem ficar desabastecidas e o compromisso com programas públicos, como o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), fica em risco.
A situação expõe uma aparente contradição no mandato da secretária Beatriz Barros Braga, que tem a missão constitucional de fomentar o desenvolvimento rural de forma inclusiva. O silêncio da pasta diante dos reiterados apelos da cooperativa só aumenta a sensação de abandono. Os agricultores cobram mais do que o pagamento: exigem transparência, respeito e um compromisso público de que serviços essenciais à agricultura familiar não serão negligenciados em favor de outros setores.
O espaço para manifestação da Secretaria de Desenvolvimento Rural segue aberto. A pergunta que fica, e que a sociedade rural espera ver respondida, é direta: Quando a agricultura familiar, base da economia e da segurança alimentar local, será tratada como a prioridade que de fato é?
