Amapá: A Queda que Não Tira o Título de Estado Mais Violento e Expõe a Ineficácia do Plano de Segurança
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que, apesar de uma redução nas taxas, o estado permanece no topo do ranking nacional de violência, colocando em xeque as estratégias do governo estadual implementadas em 2023.
MACAPÁ – O Amapá consolidou-se, pelo segundo ano consecutivo, como o estado mais violento do Brasil. É o que revelam os dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados nesta semana. Com uma taxa de 45,1 Mortes Violentas Intencionais (MVI) por 100 mil habitantes em 2024, o estado mantém a indesejável liderança nacional, um triste indicador de que o plano de segurança pública implantado pelo governo em 2023 não conseguiu alterar a realidade estrutural de violência que assola a população.
A gestão estadual pode tentar se agarrar a um único dado positivo: a queda de 30,6% na taxa de MVI em relação a 2023, quando o índice foi de 64,9 por 100 mil. No entanto, especialistas e os próprios números alertam que celebrar essa redução é ignorar o quadro mais amplo e grave. Cair de um pico catastrófico para um patamar ainda extremamente crítico não significa sucesso; significa que a estratégia foi, na melhor das hipóteses, insuficiente.
A Queda Ilusória e a Persistência da Violência
O relatório do FBSP é claro ao apontar a persistência de “bolsões de extrema violência” no país, categoria da qual o Amapá é o maior expoente. A melhora numérica esconde uma verdade incontestável: mesmo com a queda, a taxa de violência no estado é mais que o dobro da média nacional, projetada em cerca de 21,0 por 100 mil. Um amapaense ainda tem mais que o dobro de chance de ser vítima de um homicídio doloso, latrocínio ou morte em intervenção policial do que a média dos brasileiros.
“Uma redução percentual expressiva após um ano absolutamente anormal, como foi 2023, pode indicar mais uma volatilidade comum em estados com população menor do que a efetividade de uma política de estado”, analisa um pesquisador em segurança pública que preferiu não se identificar. “O plano pode ter tido ações pontuais, mas claramente não atacou as causas profundas da violência: a falência do sistema socioeducativo, a baixa resolutividade policial, a forte atuação de facções criminosas e a profunda desigualdade social.”

O Caso Santana: O Espelho da Inconstância
O exemplo do município de Santana é um microcosmo do que ocorre no estado. A cidade, que era a número 1 em violência no país em 2023, caiu para a 18ª posição em 2024. Uma vitória? Não tão rápido. Apesar da significativa queda de 41,7% (de 92,9 para 54,1 mortes por 100 mil), Santana continua com um índice de violência tão alto que permanece entre as 20 cidades mais perigosas do Brasil, mostrando que a melhoria é relativa e extremamente frágil.
O Plano em Xeque
O plano de segurança do governo do Amapá, lançado em 2023 com promessas de modernização, integração de forças e investimento em inteligência, parece não ter saído do papel de forma consistente. A população continua refém da guerra entre facções e da sensação de impunidade. As críticas apontam para a falta de continuidade das ações, a subutilização de recursos federais e a ausência de um trabalho integrado focado na prevenção social do crime.
Procurada, a Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Amapá (SEJUSP)) emitiu uma nota afirmando que “reconhece os desafios” e que “os dados de 2024 refletem um primeiro passo em um trabalho de longo prazo”. A pasta citou operações integradas e a aquisição de viaturas como medidas do plano, mas não apresentou metas claras ou uma autocrítica sobre por que, mesmo com essas ações, o estado permanece no topo do ranking nacional.
Enquanto isso, a população amapaense paga o preço diário de viver no estado mais violento do Brasil. Os números do anuário não são apenas estatísticas; são um retrato de um fracasso político e um alerta urgente: é preciso muito mais do que um plano com nome bonito para devolver a paz aos cidadãos.
