Lar Amapá Gasolina, crime e política: o rastro da máfia do combustível que passa pelo Amapá

Gasolina, crime e política: o rastro da máfia do combustível que passa pelo Amapá

Investigações revelam corredor bilionário de sonegação, facções atuando no roubo de cargas e suspeitas de proteção política que transformaram o estado em peça estratégica do crime organizado no setor de combustíveis.

por admin
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Máfia dos combustíveis quer delatar Antonio Rueda, o presidente do União Brasil, e entregar esquema bilionário de importações pelo Amapá

Quando o assunto é combustível no Brasil, o Amapá aparece cada vez mais em relatórios de investigações policiais e fiscais não pela produção ou pelo consumo, mas pelo papel estratégico em esquemas milionários que misturam sonegação fiscal, facções criminosas e suspeitas de conexões políticas.

Nos bastidores do setor, autoridades e investigadores já apelidaram o mecanismo de “Corredor do Amapá”, um sistema sofisticado usado para driblar o pagamento do ICMS e movimentar combustível adulterado pelo país.

O corredor bilionário da fraude

Investigações apontam que empresas ligadas ao crime organizado criaram estruturas empresariais no Amapá apenas no papel, com o objetivo de aproveitar regras fiscais que permitiam a suspensão temporária do ICMS em operações de importação.

Na prática, o combustível quase nunca passava pelo estado.

Navios — muitos deles vindos da Rússia — realizavam despacho antecipado em alto-mar, principalmente próximo ao porto de Suape (PE). A carga seguia diretamente para o Sudeste, onde era vendida como se tivesse passado pelo Amapá, escapando do imposto.

O resultado dessa engenharia fiscal criminosa foi devastador.

Somente o estado de São Paulo calcula um prejuízo de mais de R$ 1,1 bilhão em impostos não recolhidos.

No centro desse esquema aparecem nomes conhecidos no submundo do combustível:
Mohammed Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”, apontados como operadores financeiros ligados ao PCC. Ambos são considerados foragidos.

Facções também operam no rio

Enquanto o esquema bilionário ocorria nos bastidores da importação e da fraude fiscal, outra frente criminosa se desenvolvia dentro da própria Amazônia.

Investigações da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO/AP) revelaram que facções passaram a atuar no roubo direto de combustível de embarcações que trafegam pelos rios da região.

O método era simples e lucrativo.

Quadrilhas interceptavam barcos que transportavam combustível nas rotas entre Manaus, Belém e o Amapá, desviando cargas que depois eram revendidas no mercado ilegal dentro do próprio estado.

Segundo os investigadores, o esquema movimentava cerca de R$ 150 mil por mês, dinheiro usado para financiar outras atividades criminosas.

Postos, lavagem de dinheiro e adulteração

Além das operações em larga escala, investigações também identificaram irregularidades em postos de combustíveis locais.

Entre os crimes investigados estão:

  • Adulteração com metanol, substância tóxica usada para aumentar volume e lucro;

  • Lavagem de dinheiro, usando postos e lojas de conveniência como fachada;

  • Fraudes na medição e na qualidade do combustível vendido ao consumidor.

Em operações recentes realizadas em Macapá e Santana, fiscais interditaram bombas após constatarem irregularidades na composição e na medição do combustível.

Onde entra a política?

É justamente nesse ponto que o caso ganha contornos mais delicados.

Esquemas dessa magnitude envolvendo importações internacionais, licenças fiscais, empresas de fachada e movimentação bilionária dificilmente sobrevivem sem algum nível de proteção política ou falhas graves de fiscalização institucional.

Investigadores já apontaram que o modelo do “corredor fiscal” dependia de autorizações e registros administrativos que, na prática, permitiam que empresas operassem durante meses antes que qualquer irregularidade fosse detectada.

Na prática, o Amapá acabou sendo usado como porta de entrada burocrática para uma fraude que nunca passou fisicamente pelo estado.

O Amapá como peça do tabuleiro nacional

O resultado é um cenário preocupante:
um estado pequeno, com estrutura fiscal limitada, acabou sendo transformado em peça estratégica de um dos maiores esquemas de fraude tributária do setor de combustíveis no país.

Entre navios fantasmas, empresas de papel, facções criminosas e bilhões em impostos desviados, o rastro da máfia do combustível mostra que o problema vai muito além de gasolina adulterada.

O que está em jogo é um sistema inteiro que permitiu que o crime organizado encontrasse brechas no Estado — e as transformasse em negócio bilionário.

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