Um conflito entre laudos técnicos sobre a segurança do Shopping Popular, na capital macapaense, expõe as entranhas de uma máquina pública movida a interesses políticos e familiares. De um lado, a Prefeitura de Macapá emite alertas baseados em um laudo que aponta fissuras e riscos estruturais no prédio, construído há três anos. Do outro, o Corpo de Bombeiros Militar do Amapá (CBMAP), sob a assinatura do tenente-coronel Sanches, emite um parecer contrário, garantindo que não há perigo. A contradição, no entanto, vai além da engenharia e mergulha fundo no pantanoso terreno da política local.
As rachaduras no shopping parecem ecoar as fissuras na ética administrativa. Investigação do Bambam News revela que o oficial responsável pelo laudo dos Bombeiros, tenente-coronel Sanches, não é um mero técnico na corporação. Ele é peça-chave em uma articulação política do governador Clécio Luís (SD) para as eleições de 2026. Sanches é amplamente cotado nos bastidores como o nome do governo para uma vaga de deputado estadual, com a missão específica de captar votos dentro da própria corporação e fortalecer a base governista na Assembleia Legislativa.
A recompensa por aceitar a missão eleitoral? Segundo apurado com fontes da segurança pública, o tenente-coronel também é um dos nomes na fila para uma promoção ao posto de coronel, o mais alto da hierarquia. O caso configura um clássico conflito de interesses: o mesmo oficial que emite um laudo favorável ao governo, contradizendo a prefeitura, é posteriormente recompensado com candidatura e ascensão na carreira.
A trama se complica ainda mais ao se investigar a origem do problema. A construção do Shopping Popular, que hoje exibe vícios estruturais, foi agraciada a um sobrinho do próprio governador Clécio Luís, quando este era prefeito da capital. A defesa ferrenha do atual governo estadual para derrubar o alerta de risco da prefeitura atual é interpretada por adversários e especialistas consultados como uma manobra para proteger não apenas um empreendimento, mas a herança política e familiar da gestão anterior.
O preço da incerteza
Enquanto o jogo de poder segue nos gabinetes, comerciantes e consumidores do Shopping Popular permanecem em um limbo de insegurança. Qual laudo seguir? A prefeitura, que fiscaliza o dia a dia da cidade, ou os bombeiros, autoridades máximas em segurança contra incêndio e pânico? A politização do caso deixou a população sem um veredicto técnico confiável, tornando cada rachadura no shopping um símbolo de uma administração que parece colocar seus interesses acima do bem-estar público.
Procuradas, as assessorias do Governo do Estado e do Corpo de Bombeiros não se manifestaram sobre as acusações de conflito de interesse e a articulação política em torno do tenente-coronel Sanches. A Prefeitura de Macapá manteve a validade de seu próprio laudo técnico e reafirmou o alerta de risco à população.
A pergunta que paira no ar, portanto, não é apenas sobre a solidez do concreto, mas sobre a solidez da moralidade na administração pública. O laudo dos Bombeiros foi um ato de técnica ou um ato de politicagem?
Bambam News – Onde a notícia reverbera além da superfície.
