Investigação confirma que contrato milionário para construir o prédio foi concedido a empresa do sobrinho do então prefeito; estrutura apresentou falhas graves em menos de três anos, expondo o custo social do favorecimento familiar com o dinheiro público.
A promessa era de um espaço moderno e seguro para impulsionar o comércio local. A realidade, entretanto, é um prédio rachado, interditado e uma centena de pequenos empreendedores com o sustento interrompido. Por trás do colapso precoce do Shopping Popular de Macapá está uma verba milionária da Prefeitura que fluiu diretamente para os cofres de um parente do então gestor, o ex-prefeito Clécio Luís Vilhena Vieira. Confirma-se: a empresa Arte Construções Engenharia Ltda EPP, contratada para erguer o shopping, pertence a Gabriel Figueiredo Di Miceli, filho da irmã de Clécio Luís.
Este não é um caso de mera coincidência ou de uma obra mal feita. É a materialização de um conflito de interesses que coloca o patrimônio público e a economia popular a serviço de interesses privados e familiares. Em 2020, na gestão do tio, o sobrinho Gabriel Figueiredo Di Miceli assinou, como representante legal de sua empresa, um contrato no valor de R$ 3.720.156,49 para construir o shopping. Sem licitação? O texto não especifica, mas a nomeação de um parente tão próximo para um serviço de tal magnitude já carrega o estigma do favorecimento.
O resultado dessa engenharia familiar está à vista: em vez de um legado de desenvolvimento, a população herdou um problema estrutural. Em menos de 36 meses, o prédio precisou ser esvaziado às pressas após a identificação de rachaduras que comprometem a segurança de todos que ali trabalhavam. A “obra do primo”, entregue com festa e autopromoção, ruiu em tempo recorde, deixando lojistas desamparados e um prejuízo incalculável para a cidade.
As perguntas que este caso levanta são acusações diretas à gestão passada:
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Qual o nível de isenção na fiscalização de uma obra executada pelo próprio sobrinho do prefeito? A equipe técnica municipal teria coragem de exigir o rigor necessário de um parente do chefe?
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O edital de contratação foi moldado para beneficiar a empresa familiar? A escolha atendia ao interesse público ou ao interesse do clã?
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Quem pagará a conta dos reparos? A previsão mais sombria é a de que os R$ 3,7 milhões já gastos sejam apenas a primeira parcela, e o contribuinte será obrigado a injetar mais dinheiro para consertar o estrago de uma obra superfaturada e mal executada.
Enquanto a Prefeitura atual corre para conter os danos, os verdadeiros prejudicados são os empreendedores, vítimas de um jogo de cartas marcadas onde o poder público serviu de ponte para o enriquecimento de um grupo seleto. O Shopping Popular de Macapá se transformou no “Shopping do Nepotismo”, um símbolo vergonhoso de como a confiança da população é traída em troca de benesses familiares. A estrutura rachada do prédio é um reflexo fiel da ética que a comandou desde o início.
