No Amapá, parece que amizade de senador rende mais do que investimento na bolsa. Um relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) joga luz sobre um contrato milionário que envolve um empresário próximo do senador Davi Alcolumbre, dinheiro público da saúde e uma engenharia administrativa que, no mínimo, levanta sobrancelhas.
O personagem da vez é Luciano Goulart, empresário que já aparece nas rodas políticas de Brasília e do Amapá desde 2019, quando foi escolhido para coordenar o programa Mais Visão. Mas a proximidade com o senador vai além da política: segundo reportagens já divulgadas anteriormente, Goulart é dono de um jatinho frequentemente utilizado por Alcolumbre em deslocamentos.
Agora, a amizade ganhou contornos bem mais caros.
Entre 2024 e 2025, a empresa Saúde Link, ligada a Luciano Goulart, recebeu mais de R$ 72 milhões em recursos públicos dentro de um contrato que chegou a R$ 111 milhões, firmado pelo governo do Amapá com a organização religiosa Centro de Promoção Humana Frei Daniel de Samarate, conhecida como Capuchinhos.
O contrato previa reorganizar serviços hospitalares no Hospital de Clínicas Dr. Alberto Lima (HCAL), principal unidade hospitalar do estado. O detalhe é que o governo do Amapá é comandado por Clécio Luís, aliado político de Alcolumbre.
Mas o que a auditoria da CGU encontrou foi algo que parece roteiro clássico de terceirização em cascata: a entidade religiosa ganhou o contrato, mas transferiu 98% da execução para a empresa Saúde Link, justamente do empresário próximo ao senador.
Na prática, quem ficou responsável por contratar profissionais de saúde, organizar equipes médicas e gerir parte dos serviços hospitalares foi a empresa privada.
Para os auditores federais, isso não deveria ter acontecido dessa forma.
Segundo o relatório, o termo firmado entre os Capuchinhos e a Saúde Link previa o repasse de 98% de todo o valor do contrato, o que esvazia completamente o papel da entidade que venceu o chamamento público.
Ou seja: a entidade ganha o contrato, mas quem executa quase tudo é a empresa do amigo do senador.
E tem mais.
A auditoria identificou indícios de sobrepreço de 27,9% nos serviços analisados, o que representa cerca de R$ 18,2 milhões em possível superfaturamento.
Além disso, os auditores apontaram fragilidades graves na prestação de contas, incluindo pagamentos que somam R$ 55,5 milhões sem comprovação do cumprimento das metas previstas no contrato.
Enquanto isso, a entidade Capuchinhos afirma apenas que é uma organização sem fins lucrativos dedicada a serviços sociais e de saúde para famílias vulneráveis — mas não explica por que praticamente toda a execução foi transferida para uma empresa privada.
No meio dessa engrenagem milionária, fica a pergunta que não quer calar:
quando dinheiro da saúde pública passa por tantas mãos, quem realmente está cuidando dos pacientes — e quem está cuidando do caixa?
No Amapá, pelo visto, até hospital pode virar escala de aeroporto para amigo de senador.
