Contrato do Sobrinho, Obra Rachada: O Colapso do Shopping Popular de Macapá e a Guerra Judicial pelo Espólio
Gravação revela que homem ligado ao governador e partido PSOL ,teria comprado assinatura de lojista para ação do governo contra a prefeitura. Investigações apontam que a motivação do Estado para tentar assumir o shopping pode ser abafar escândalo de nepotismo e obra superfaturada na gestão passada do ex-prefeito Clécio Luís.

Uma combinação explosiva de nepotismo, obra malfeita, chantagem e uma guerra política está no centro do colapso do Shopping Popular de Macapá. Enquanto o prédio, entregue há menos de três anos, está interditado por rachaduras graves, uma crise subterrânea envolve o governador Clécio Luís (Solidariedade), sua gestão anterior na prefeitura e uma tentativa do atual governo do estado de tomar a administração do local a qualquer custo – inclusive, segundo denúncia, comprando assinaturas de lojistas.
A trama ganhou contornos de operações secretas com o vazamento de um áudio do empreendedor Elieldo Almeida Marques, conhecido como Ploc. Na gravação, ele se queixa de ter sido “enganado” e usado por um agente identificado apenas como Cristiano, que atuaria a mando do governo do estado.
A Chantagem e a Assinatura Comprada
No áudio, Ploc desabafa: “Eu já tô sabendo de tudo. Mas, cara, eu vou te falar a mesma coisa: eu fui enganado na mão do Cristiano”. Ele relata que Cristiano prometeu R$ 4 mil, mas repassou apenas R$ 1 mil, para que ele assinasse uma petição segundo informaçãoes o governo do Amapá pede na Justiça a posse do prédio, que é da prefeitura. Segundo Ploc, foi-lhe dito que a assinatura era para “outro fim”.
A validade do documento judicial dependeria de assinaturas de empreendedores do shopping. Cristiano teria procurado outros trabalhadores, mas só conseguiu a de Ploc, que se sentiu traído. Revoltado, o lojista chegou a ameaçar: “Eu tô indo para o Perpétuo Socorro, cara, invadir a casa dele do Cristiano… Eu vou quebrando a casa do Cristiano”. E justifica: “Porque o que o Cristiano fez comigo é uma sacanagem, mano. Ele me deu mil reais… Mas não pensava que ia dar esse B.O. todo”.
Ploc ainda alerta que a prática foi ampla: “Ele tentou em cima de muita gente. Mas eles não pegaram o dinheiro. Eu peguei, né, cara?”.
A Motivação Oculta: Proteger o Sobrinho e o Contrato Milionário
Por trás da investida agressiva do governo estadual, segundo apuração baseada em documentos e registros públicos, está um escândalo de nepotismo e corrupção na obra que data da gestão de Clécio Luís na prefeitura de Macapá (2017-2020).

O Shopping Popular foi construído por meio de um contrato de R$ 3,7 milhões celebrado entre a prefeitura e a empresa Arte Construções Engenharia Ltda. O representante legal da empresa é Gabriel Figueiredo Di Miceli, sobrinho de Clécio Luís, filho de sua irmã.
A obra, portanto, foi executada por um parente direto do então prefeito. Em menos de 36 meses após a inauguração, o prédio apresentou rachaduras estruturais graves, tendo que ser interditado às pressas pela prefeitura . A “obra do sobrinho” se revelou um fiasco técnico e um desperdício de dinheiro público, deixando mais de uma centena de famílias sem sustento.

Agora, na governadoria, Clécio Luís vê o passado cobrando o preço. Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a tentativa desesperada do estado de tomar a administração do shopping da prefeitura atual tem um objetivo claro: controlar o narrativa, a perícia e as investigações sobre as falhas da obra. Quem administra o local tem poder sobre o acesso ao prédio, documentação e o andamento de futuras ações de reparação ou responsabilização.
O Conflito que Sacrifica os Pequenos
Enquanto o governo do estado mobiliza sua máquina (Crea-AP, bombeiros, mídia pública) para pressionar a prefeitura, e a prefeitura resiste à tomada, os verdadeiros reféns são os lojistas. Eles são vítimas duplas: primeiro, de um prédio inseguro construído por nepotismo; segundo, de uma guerra política suja onde são cooptados ou ignorados.
O áudio de Ploc escancara a tática de bastidor: usar um intermediário (Cristiano) para coletar assinaturas a troco de dinheiro, possivelmente para fortalecer a narrativa estadual de que os lojistas “apoiariam” a intervenção.
Perguntas que o Governador Precisa Responder:
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O então prefeito Clécio Luís tinha conhecimento de que o contrato milionário seria executado pelo seu sobrinho? Como justifica o conflito de interesses?
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A fiscalização da obra foi feita com rigor, ou o parentesco com o prefeito garantiu blindagem à empresa?
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A atual investida do governo do estado para tomar o shopping tem como objetivo proteger o governador e seu sobrinho das consequências jurídicas e políticas da obra malfeita?
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Quem é “Cristiano”, qual seu vínculo funcional e quem o autorizou a comprar assinaturas com dinheiro público?
Procuradas, as assessorias do Governo do Estado e do Gabinete do Governador Clécio Luís não se manifestaram até o fechamento desta edição. A reportagem também não localizou o intermediário Cristiano para ouvir sua versão.
O caso do Shopping Popular de Macapá deixou de ser uma simples questão de infraestrutura. Tornou-se o episódio síntese de uma política corrompida: do nepotismo na origem ao uso de chantagem e força estatal para tentar tapar o sol com a peneira. A estrutura rachada do shopping é, agora, a imagem perfeita da ética que ruiu.
