Enquanto diversos artistas do Amapá reclamam de atrasos em pagamentos e dificuldades para receber cachês por apresentações em eventos públicos, uma situação curiosa chama atenção nos bastidores da cultura no estado: os pagamentos da cantora amapaense Leticia Auolly, que hoje faz sucesso em todo o Norte do Brasil, seguem rigorosamente em dia.
A disparidade ocorre em meio à análise da Proposta de Trabalho nº 066691/2025, apresentada pelo Instituto Baluarte da Amazônia ao Ministério do Turismo, que prevê a realização de festas de Réveillon em seis municípios do Amapá Mazagão, Cutias, Oiapoque, Santana, Calçoene e Porto Grande com orçamento total de R$ 6 milhões.
Documentos do próprio plano de trabalho revelam inconsistências que levantam questionamentos sobre a gestão dos recursos destinados aos eventos culturais.
Cachês que variam até 220%
Um dos pontos mais controversos envolve justamente a contratação de Leticia Auolly.
Nos documentos analisados, a cantora aparece com valores bastante distintos para apresentações semelhantes:
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R$ 200 mil por show em Mazagão
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R$ 640 mil por show em Porto Grande
A diferença chega a R$ 440 mil, o que representa um aumento de 220% para apresentações dentro do mesmo projeto e no mesmo período.
Além disso, em um dos eventos a artista é classificada como “artista regional”, enquanto em outro aparece como “artista nacional”, com cachê de R$ 350 mil.
Especialistas em gestão pública apontam que esse tipo de variação sem justificativa técnica consistente pode indicar problemas na formação de preços ou até indícios de superfaturamento.
Prioridade seletiva?
Nos bastidores do meio cultural amapaense, o comentário é outro: artistas locais relatam dificuldades para receber pagamentos por apresentações em eventos financiados com recursos públicos.
Enquanto isso, segundo relatos de produtores culturais, os pagamentos da cantora Leticia Auolly estariam sendo feitos sem atraso, o que gerou críticas sobre possível priorização dentro da Secretaria de Cultura e turismo
O nome que aparece no centro dessas críticas é o da secretária Syntia Machado dos Santos Lamarão, apontada por artistas locais como responsável pela gestão que estaria privilegiando determinados nomes enquanto outros profissionais da música amapaense aguardam meses para receber.
Cronograma impossível e risco ao erário
Outro problema apontado na proposta envolve o próprio cronograma do projeto.
O convênio teria vigência iniciando em 31 de dezembro de 2025, exatamente no mesmo dia em que começariam as etapas de contratação, montagem de estrutura e realização dos shows.
Na prática, especialistas apontam que seria impossível realizar licitação, contratação, empenho e execução de um evento complexo no mesmo dia, o que levanta suspeitas de cronograma inexequível ou execução prévia.
Falta de detalhamento
Também chama atenção a ausência de itens essenciais no orçamento do evento, como:
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estrutura de som e iluminação
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segurança privada
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ambulâncias e brigadistas
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limpeza do espaço
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hospedagem de equipes
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logística de produção
Sem esse detalhamento, analistas alertam que parte dos custos pode estar embutida nos cachês artísticos, dificultando a verificação real dos valores.
Questionamentos inevitáveis
A proposta também levanta dúvidas sobre a própria capacidade do Instituto Baluarte da Amazônia, uma entidade privada sem fins lucrativos, para administrar simultaneamente um projeto de R$ 6 milhões em seis municípios.
Outro ponto que chama atenção é a ausência de contrapartida financeira da entidade, o que aumenta ainda mais a dependência total de recursos públicos.
Cultura seletiva?
No meio artístico do Amapá, o sentimento é de desigualdade.
Enquanto uma cantora recebe cachês robustos e pagamentos em dia, diversos artistas locais relatam atrasos, falta de valorização e dificuldade para acessar os mesmos recursos públicos destinados à cultura.
No fim das contas, a pergunta que ecoa nos bastidores é simples:
A política cultural do estado está fortalecendo a cena artística amapaense… ou escolhendo seus favoritos?
Com tantas inconsistências no projeto, o caso já reúne elementos suficientes para despertar a atenção de órgãos de controle como TCU e CGU.
E no Amapá, quando o assunto envolve milhões em dinheiro público, cachês inflados e prioridades seletivas, a cultura deixa de ser apenas festa e passa a ser caso de investigação.
