Morre Celso Rabelo, ex-comunicador cuja vida foi perdida entre a burocracia e a negligência do Estado
Após ação judicial, MP alertou para risco de “sequelas irreversíveis” e “descaso” da saúde pública; paciente faleceu no dia 5 de novembro, vítima de uma espera que se mostrou fatal.
Data: 6 de Novembro de 2025
Por: Jean Bambam
A voz que por mais de três décadas ecoou pelos estúdios da Rádio Difusora do Amapá calou-se para sempre. Celso Rabelo dos Santos, técnico e comunicador que dedicou sua vida profissional ao serviço público, faleceu ontem, 5 de novembro, após uma batalha de meses não apenas contra a doença, mas contra a morosidade e a inércia do poder que ele um dia serviu. Sua morte é o trágico epílogo de uma história de abandono amplamente denunciada, mas nunca solucionada.
A trajetória de descaso com a saúde de Celso Rabelo foi documentada em ações judiciais e reportagens. Em agosto deste ano, uma Ação de Obrigação movida pelo Ministério Público do Estado do Amapá (MP-AP) pedia, com caráter de extrema urgência, que o Estado realizasse uma cirurgia de angioplastia no membro inferior direito do paciente. O procedimento, essencial para salvar seu pé, foi orçado em R$ 78.866,35.

A resposta inicial do Governo do Amapá, em 20 de agosto, foi a de que o procedimento “não é ofertado pela rede pública estadual de saúde” e que não havia empresa “contratualizada” para realizá-lo. Uma justificativa burocrática que, na prática, significava a condenação de Celso a uma espera angustiante.

O Ministério Público, em sua réplica, foi contundente. Afirmou que “não é admissível que qualquer pessoa seja submetida a um longo período de espera, suportando o sofrimento, a angústia e a indignidade causados pela falta de atendimento, pela burocracia excessiva e pela insuficiência estrutural“. O órgão alertou, de forma quase profética, que sem a intervenção judicial, era “provável que advenham complicações mais graves em seu quadro clínico, além de sequelas irreversíveis que poderão decorrer da omissão e do descaso“.
O MP chegou a pedir uma tutela de urgência para que o Estado realizasse a cirurgia em até 24 horas, sob pena de multa diária de R$ 7.886,63. A matéria publicada em 31 de agosto, intitulada “Trinta anos de voz, trinta dias de silêncio: o abandono de Celso Rabelo“, já expunha ao público a gravidade da situação: o ex-comunicador estava internado há mais de um mês, com risco iminente de amputação.

Apesar dos alertas judiciais e da pressão pública, a máquina estatal não se moveu a tempo. A cirurgia que poderia ter salvado seu pé e, possivelmente, sua vida, não foi realizada a contento. A demora do Estado em atender a uma determinação judicial e a um caso de saúde crítica mostrou-se fatal.
A Cirurgia
Depois de muita pressão por parte da imprensa amapaense e do Ministério Público estadual, a cirurgia foi realizada. Mas já era tarde. Celso perdeu o pé, a doença se alastrou por todo o seu corpo, e ele veio a óbito.
A morte de Celso Rabelo levanta questões graves sobre a eficácia das políticas de saúde no Amapá e o valor dado à vida humana diante de orçamentos e trâmites administrativos. Ele não era um número em uma planilha, mas um cidadão, um servidor, uma voz que agora se calou. Sua história, que se encerrou tragicamente ontem, permanece como um doloroso testemunho de um sistema que, ao falhar em sua missão mais básica, falhou com toda a sociedade.
O Governo do Estado do Amapá foi contactado para se manifestar sobre o ocorrido, mas até o fechamento desta edição, não havia se pronunciado.
