Em uma manobra típica de bastidores políticos, o governador Clécio Luís exonerou, na tarde desta sexta (09), o secretário de Governo e Planejamento, Carlos Michel Miranda da Fonseca. A demissão em pleno final de semana, longe dos holofotes da imprensa, não foi um mero ajuste de equipe. Ela revela um governo em estado de alerta máximo, onde o planejamento cede lugar à blindagem, e a discordância se tornou um ato de insubordinação.
Carlos Michel, que ocupava um cargo central na articulação política e na gestão orçamentária do Estado, vinha alertando, há semanas, sobre um risco iminente de colapso nas contas públicas. Fontes ouvidas pela reportagem confirmam que o secretário bateu na mesa sobre a crescente falta de liquidez: fornecedores com pagamentos atrasados, contratos sem honra e uma máquina administrativa que começa a travar. Os alertas, no entanto, esbarraram em uma realidade política mais urgente.
Nos corredores do Palácio do Setentrião, a gestão é descrita como um campo de batalha. Secretários travam uma guerra surda por espaços de influência, controle de contratos milionários e pela antecipação de projetos eleitorais para 2026. O clima, unânime entre servidores de alto escalão, é de “insustentabilidade”. A chamada “Lei Cleciana”, em tom jocoso mas levada a sério, impõe uma lógica férrea: questionamentos são vistos como deslealdade. Quem discorda, quem alerta, é excluído.
A exoneração de Carlos Michel é vista, portanto, como a eliminação de um “profeta do caos” – um técnico cujos avisos sobre a tempestade financeira se tornaram inconvenientes para a narrativa de controle que o governador tenta manter. A blindagem do governo passa, aparentemente, por silenciar qualquer voz que aponte fissuras, mesmo que essas fissuras ameacem os alicerces da administração.
Paradoxalmente, a medida expõe justamente o que tenta esconder. A popularidade do governo em queda e o desgaste político acelerado criam um cenário de isolamento. Enquanto Clécio se cerca de um círculo cada vez mais restrito, parte de sua própria base de apoio já busca novos horizontes e alianças fora do projeto original, antevendo um navio que começa a fazer água.
O resultado final é uma gestão fragmentada, que troca o planejamento de longo prazo pelo improviso do dia a dia, e a transparência pela cultura do segredo. A exoneração de fim de semana é o símbolo de um governo que, acuado por suas contradições, prefere sacrificar o mensageiro a encarar a mensagem. A pergunta que fica é: sem quem aponta os riscos, quem evitará o colapso?
