Na tarde da última segunda-feira (29), o Teatro Municipal Fernando Canto, em Macapá, transformou-se em um tribunal popular, onde o riso era a sentença. Com plateia cheia e votação calorosa, ocorreu a premiação “Os Piores do Ano 2025”, organizada pelo Programa Fala Comunidade e pela Rádio Forte FM 99.9. Longe de ser apenas uma noite de humor ácido, o evento revelou um termômetro afiado do descontentamento popular, usando o sarcasmo como arma de crítica social.
Entre categorias que iam do “Pior Serviço Público” ao “ bago do ano de 2025 ”, foi a votação para “Pior Vereador de 2025” que concentrou a ira dos eleitores. Com mais de 3 mil ligações recebidas em duas semanas de votação ao vivo, o “vencedor” foi o vereador Pedro Dalua. A escolha, segundo relatos de ouvintes e organizadores, não foi por acaso: representa um acumulado de frustrações. Os eleitores citaram, em massa, a fama de “não cumprir o que fala”, além de ações consideradas autoritárias e precipitadas.
Dentre os motivos apontados, destacam-se a tentativa de cassar o mandato do prefeito em menos de 24 horas, sem que houvesse conclusão das investigações pela Justiça amapaense, e acusações de machismo direcionadas à vereadora Luana Serrão. Nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp que circularam maciçamente durante a votação, prints e áudios vazados mostrariam o vereador não apenas articulando a retirada do mandato da colega, como também fazendo “propostas indecorosas”. Para muitos que votaram, a premiação foi a única forma de “calar na urna simbólica” quem, na prática, parecia não ouvir o povo.
A cerimônia, que misturou stand-up, leitura de justificativas e reações ao vivo, mostrou um público ávido por espaços de expressão direta. “É o humor cumprindo o papel social de cutucar a ferida”, comentou um dos organizadores. “A comunidade não só fiscaliza, mas cria seus próprios mecanismos de avaliação, quando sente que a representatividade falhou”.
O evento, embora carregado de ironia, levantou questões sérias sobre ética na política, misoginia e o uso das redes sociais como extensão de assédio e perseguição. Mais do que eleger um “pior”, Macapá usou o microfone aberto da rádio e o palco do teatro para dizer, em alto e bom som, que a população observa, anota e não perdoa ainda que o faça rindo para não chorar.
Para analistas locais, iniciativas como essa evidenciam um sintoma de desconfiança crescente nas instituições, mas também uma vitalidade democrática peculiar: onde o povo não se cala, inventa novos formatos para ecoar sua voz. Agora, resta saber se os “premiados” vão ouvir ou se preferem continuar como estrelas de um palco que ninguém quer, mas que todos assistem.
