Mais uma vez, o improviso e a falta de critério colocam em risco a saúde das mulheres no Amapá. A Secretaria de Estado da Saúde (SESA) assinou um termo de fomento no valor de R$ 13 milhões com a Associação dos Renais Crônicos do Pará, uma entidade voltada ao atendimento de pacientes com insuficiência renal, para executar ações voltadas à atenção à saúde da mulher — incluindo procedimentos de média e alta complexidade.
O problema é que a instituição contratada não tem qualquer comprovação técnica, nem histórico de atuação nessa área específica da saúde. Sem preparo, sem corpo clínico especializado e sem estrutura para lidar com os riscos e exigências desses procedimentos, a associação expõe mulheres amapaenses a atendimentos inseguros, sem garantia de qualidade e sem respaldo profissional adequado.
A iniciativa lembra o fracassado programa “Mais Visão”, também executado por meio de fomento, que prometia resolver problemas oftalmológicos, mas terminou deixando dezenas de pacientes com sequelas permanentes — e o sistema de saúde com mais um passivo a resolver.
Enquanto isso, a estrutura já existente no estado, como a Carreta do Hospital do Amor — referência nacional em rastreio e prevenção do câncer de colo de útero e mama — segue subutilizada. A unidade móvel conta com equipe técnica qualificada, protocolos consolidados e histórico de atuação responsável em diversos municípios amapaenses.
O investimento milionário em uma organização sem vínculo com a saúde da mulher levanta suspeitas de favorecimento institucional e compromete a credibilidade da gestão estadual. A saúde pública exige planejamento, transparência e responsabilidade. Sem isso, o que se tem é a repetição de um modelo perigoso, baseado em improviso e, possivelmente, em interesses alheios ao bem-estar da população.
A saúde das mulheres do Amapá não pode ser moeda de troca nem campo de experimentos mal planejados. A sociedade exige explicações — antes que o dano seja, novamente, irreversível.
