O cenário político do Amapá voltou a expor sinais claros de fissura na coalizão que governa o Estado. Nas últimas semanas, o ministro do Desenvolvimento Social e ex-governador, Waldez Góes, tem sido alvo de uma série de ataques recorrentes e críticas sistemáticas em um portal de notícias alinhado ao governo estadual. A situação chama atenção não apenas pelo conteúdo, mas pela origem do veículo: o site é dirigido pelo blogueiro Herverson Castro e, conforme amplamente conhecido nos bastidores políticos, recebe financiamento público por meio de verbas de comunicação institucional do próprio Estado.
A repetição das críticas, o tom contundente e a escolha do alvo – uma figura histórica e central do campo político que sustenta a atual gestão – indicam mais do que jornalismo opinativo. Para analistas e operadores políticos locais, os ataques são a expressão pública de uma tensão interna que pode afetar a governabilidade e a sucessão estadual em 2026.
O portal, que normalmente pauta sua cobertura de acordo com os interesses do Palácio do Setentrião, tem dedicado espaço incomum para atacar Waldez, membro do mesmo partido do governador Clécio Luís e peça-chave na articulação política com o governo federal. As críticas variam desde a gestão do ministério em Brasília até insinuações sobre sua influência no Amapá, em uma clara tentativa de desgastar a imagem do ex-governador.
O silêncio do governador Clécio Luís diante dos ataques é considerado, por observadores, um dos aspectos mais significativos da crise. A ausência de qualquer defesa pública ou movimento para conter os ataques no veículo aliado é interpretada como uma tolerância tática ou mesmo um aval tácito à ofensiva. A postura alimenta especulações de que o governador estaria permitindo o ataque a um potencial rival interno, enquanto busca consolidar seu próprio projeto de poder.
“Quando um veículo que é sustentado com dinheiro público do governo ataca um aliado histórico desse mesmo governo, não se trata de jornalismo, mas de guerra política por procuração”, avalia um deputado estadual que pediu anonimato. “O silêncio do governador é uma mensagem por si só.”
A tensão exposta tem raízes na disputa pela influência dentro do campo governista e nos preparativos para as eleições de 2026. Waldez Góes, com forte trânsito em Brasília e base política consolidada no Estado, é visto naturalmente como um nome competitivo para o futuro. O ataque coordenado via mídia aliada parece ser uma estratégia para fragilizá-lo politicamente ainda na pré-campanha.
Procuradas, as assessorias de comunicação do Governo do Estado do Amapá e do Ministério do Desenvolvimento Social não se manifestaram sobre o caso até o fechamento desta edição. A reportagem também tentou contato com o editor do portal, Herverson Castro, mas não obteve retorno.
Enquanto o governador Clécio Luís não se pronuncia, a base aliada assiste ao desgaste de uma de suas principais lideranças em um palanque armado com recursos do próprio grupo. O episódio deixa claro que, no Amapá, as batalhas eleitorais do futuro já começaram – e a primeira trincheira está no noticiário local.
