ESCÂNDALO NO SISTEMA PRISIONAL: Empresa acusada de facilitar entrada de armas e drogas no Iapen renasce das cinzas e tenta retomar contrato milionário
Por Bambam News / Especial Investigativo
Em um golpe duro à credibilidade da administração pública e às promessas de “guerra ao crime organizado”, a empresa que se tornou sinônimo de privilégio ilegal, conivência com facções e falhas de segurança no sistema prisional do Amapá agora tenta voltar ao centro do fornecimento de refeições ao Instituto de Administração Penitenciária do Amapá (Iapen).
A antiga Cozinha Gourmet, protagonista de um dos maiores escândalos de 2022 no sistema prisional, reaparece no radar do poder público sob o nome de Servi Gastronomia Industrial, com o mesmo CNPJ, nova fachada e pretensões de assinar novamente um contrato público milionário.
Ney Pantaleão
O episódio que expôs a Cozinha Gourmet ao escrutínio da Justiça e da Polícia Federal permanece entre os mais chocantes de nossa história recente de segurança pública. Em março de 2022, a Operação “Blindness”, comandada pela PF, desmontou um esquema criminoso que utilizava a rotina de entrega de alimentos para introduzir drogas, celulares, munições e até um revólver dentro das dependências do principal presídio de Macapá. Equipamentos de comunicação e entorpecentes levados até os pavilhões folgavam de tratamento privilegiado, enquanto o poder do Estado era violado de dentro para fora.
A investigação revelou que a empresa que deveria nutrir a população carcerária e seus agentes funcionava como elo entre facções criminosas e o mundo exterior. Conversas de WhatsApp que serviram como prova judicial indicavam a entrega de “alimentação especial” a determinados detentos sem qualquer justificativa médica — um claro sinal de privilégio ilegal. Dentro de uma caixa sob a supervisão de funcionários, as autoridades encontraram vários quilos de maconha e cocaína, dezenas de celulares e munições prontas para uso.
Os efeitos daquela operação deveriam ter sido mais duradouros. No entanto, a história expõe novamente a fragilidade das estruturas de controle e integridade no uso de recursos públicos: a mesma empresa voltou a se articular para retornar ao fornecimento de alimentação ao sistema penitenciário, ainda que com nome fantasia alterado e quadro societário remodelado.
Para especialistas em direito e compliance, essa manobra não é apenas questionável: enquanto houver os mesmos controladores por trás da empresa, a mudança de nome pode ser vista como tentativa de burlar restrições legais e licitações, mascarando responsabilidades e apagando escândalos passados.
E o que disse o próprio poder público? Oficialmente, o Iapen tem divulgado nota ressaltando o fortalecimento da fiscalização do novo contrato de alimentação e a aplicação de sanções milionárias à empresa atual responsável pelo serviço, por atrasos e descumprimentos contratuais. Segundo o órgão, os mecanismos de controle foram reforçados e já geraram glosas e penalidades que ultrapassam R$ 1 milhão.
Agência de Notícias do Amapá · 1
Ainda assim, familiares de internos vêm publicamente protestando contra atrasos e falhas no fornecimento de refeições, relatando alimentos em más condições e dias de desassistência. A pressão social cresce, enquanto a diretoria do Iapen tenta se descolar do histórico de fornecimento que hoje evidencia falhas estruturais e fragilidades nos contratos públicos.
SelesNafes.com
Essa tentativa de retorno levanta questões fundamentais: qual o critério para permitir que uma empresa acusada de colaborar com o crime organizado em um dos episódios mais graves de violação de segurança prisional volte a disputar contratos com o Estado? Há uma clara contradição entre as palavras do discurso oficial – de combate à corrupção e ao crime – e as ruas, onde familiares de detentos clamam por dignidade, e onde práticas empresariais duvidosas continuam a rondar o sistema penitenciário.
O caso, longe de ser encerrado, exige transparência, rigor investigativo e a responsabilização de todos os envolvidos — não apenas com ações punitivas, mas com a garantia de que recursos públicos e a segurança de instituições estatais não sejam usados como instrumentos de facilitação do crime.