Suor na Campanha, Demissão na Gestão: A Base de Waldez é Descartada no Amapá

A Vassalagem e o Cálculo: Como o Pacto de Poder no Amapá Virou Purga na Ausência do Patrão

Por Jean Bambam

 A eleição de Clécio Luís (Solidariedade) ao governo do Amapá, em 2022, não foi apenas uma vitória nas urnas. Foi, sobretudo, a consagração de uma antiga engrenagem política. Com 53% dos votos já no primeiro turno, Clécio, político com raízes majoritariamente urbanas em Macapá, não conquistou o estado apenas com seu próprio projeto. Ele navegou, com maestria, na onda da máquina implacável do então governador Waldez Góes (PDT), uma estrutura capilar e fiel que garantiu duas vitórias consecutivas ao Palácio do Setentrião. A base pedetista “suou a camisa”, mas, no fim, foi tratada como mero lastro descartável em uma manobra de sobrevivência e ambição.

A aliança, que parecia um casamento perfeito de conveniência, começou a ruir em fevereiro de 2023, quando Waldez trocou o calor do Norte pelo ar condicionado de Brasília. Sua nomeação para o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional no governo Lula foi amplamente interpretada não como um chamado para servir à nação, mas como uma estratégia fria de autopreservação: a busca pelo foro privilegiado para se blindar de processos judiciais federais em curso. O gesto, porém, teve um custo imediato e brutal para aqueles que o sustentaram por anos.

Com o padrinho distante, sua base política no Amapá foi deixada em terra de ninguém, transformando-se em alvo privilegiado de uma “limpa” sistemática no governo que ajudou a construir. O que se seguiu foi um processo que aliados de Waldez descrevem como uma traição meticulosa. Lideranças históricas do PDT, coordenadores regionais, militantes de décadas que carregaram a eleição de Clécio nos ombros, começaram a ser exonerados ou demitidos de cargos comissionados e funções de confiança no governo estadual.

Relatos colhidos junto a ex-gestores e assessores, que pediram anonimato por temor de retaliação, são unânimes: havia listas de prioridade circulando nos gabinetes do Palácio do Setentrião. Nelas, constavam os nomes de pessoas identificadas como “waldeístas” ou “do PDT de raiz”. Esses nomes, segundo as fontes, eram os primeiros a serem riscados nas reorganizações administrativas ou cortes de pessoal. “Fomos usados como degrau e, depois que o doutor Waldez conseguiu o que queria em Brasília, viramos um estorvo. É uma ingratidão que corta a alma de quem sempre trabalhou pela causa”, desabafa um ex-coordenador de uma autarquia estadual, demitido após 8 anos de serviço público.

A sensação que permeia os corredores do poder local e as conversas nas bases é a de abandono em dose dupla. Abandonados pelo líder que seguiu em frente com sua carreira nacional, e descartados pelo aliado que, uma vez no trono, viu na antiga base de sustentação um incômodo a ser eliminado para consolidar seu próprio grupo de lealdades.

A assessoria do governador Clécio Luís, quando questionada, negou a existência de “listas políticas” para demissões, afirmando que todas as mudanças no pessoal têm como critério “a adequação técnica e a busca por eficiência na administração”. Já a assessoria do ministro Waldez Góes limitou-se a dizer que ele “não comenta assuntos da gestão estadual” e que “sua atenção está voltada para os desafios nacionais do ministério”.

Enquanto isso, no Amapá, o que resta é um PDT desfalcado e um sentimento amargo que reescreve as regras da confiança política local. O episódio serve como um crasso manual de realpolitik tropical: a lealdade é moeda de valor efêmero, e a base militante, muitas vezes, é o ativo mais frágil no jogo de ambições pessoais. A mesma máquina que elegeu Clécio foi desmontada peça por peça, não pelo adversário, mas pelo próprio beneficiário da obra, em um ato final que expôs, sem disfarces, as entranhas de um poder que se alimenta até de quem o nutriu.

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