Na política do Amapá, uma transformação silenciosa e súbita tem chamado a atenção: a magreza que atingiu vários nomes públicos da noite para o dia. Mas, em Brasília, a perda de peso que realmente preocupa não é a dos quilos na balança, e sim a do prestígio e da reputação. O caso do senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) ilustra de forma crua como uma “dieta” pode ser involuntária e vir acompanhada de pesadelos.
O motivo da insônia tem nome e apelido: Beto Louco, apontado pela Polícia Federal como parceiro do PCC na venda de combustível adulterado e lavagem de dinheiro. Em agosto do ano passado, ele presenteou Alcolumbre com canetas de Mounjaro, medicamento usado para emagrecer. A silhueta do senador pode não ter afinado com o mimo, mas o tom de sua voz nas gravações que viriam a público ficou visivelmente mais grosso um sinal do mal-estar que se instalaria.
O áudio de um assessor confirmando a entrega do presente ao chefe soa como uma bala perdida de uma guerra que promete se prolongar. Revela a proximidade perigosa com uma figura central de um esquema que usou o Amapá, terra de Alcolumbre, como um inusitado entreposto para a importação de combustível em operações de mega-sonegação. Refinarias fantasmas, que não refinavam uma gota de petróleo, movimentaram milhões sonegando impostos no estado e nos destinos finais da gasolina.
O Peso dos R$ 400 Milhões
A indigestão de Alcolumbre, porém, não vem apenas do presente de Beto Louco. Ela é agravada por outro escândalo de proporções estomacais: o caso Master, no qual um afilhado do senador aplicou R$ 400 milhões do fundo de previdência dos servidores do Amapá em papéis podres do banco de Daniel Vorcaro. É um rombo que deixou milhares de vidas financeiramente mais magras, enquanto os envolvidos nadavam em águas turvas.
A Metáfora do Corpo
Os políticos do Amapá que emagreceram subitamente tornaram-se, involuntariamente, uma metáfora viva do momento. Seus corpos transformados ecoam um estado que parece perder substância diante de operações que sugam recursos e confiança. O Mounjaro de Beto Louco, nesse contexto, é mais do que um remédio da moda: é um símbolo de que presentes do crime, quando não matam, engordam crises de dimensões nacionais.
Enquanto a PF segue os fios que ligam o crime organizado a gabinetes elegantes, o Amapá se vê no centro de uma tempestade onde a busca por um corpo perfeito na política parece insignificante perto da necessidade premente de uma dieta radical na moralidade pública. A guerra, como alertam as investigações, ainda vai longe — e o preço da magreza política pode ser altíssimo.