Dez anos, três prefeitos, milhões em emendas e nenhuma creche entregue em Santana

Enquanto o mundo testemunhava avanços como a inteligência artificial generativa, o turismo espacial e missões ao lado oculto da Lua, Santana, no Amapá, acumulava fracassos em algo muito mais simples: concluir uma creche. A construção, iniciada em 2015 com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), atravessou três gestões municipais e, mesmo após milhões de reais em repasses, segue inacabada.

A estrutura, planejada para atender 112 crianças em tempo integral, teve duas construtoras, sucessivos contratos cancelados, vandalismo recorrente e uma série de promessas não cumpridas. De Robson Rocha a Bala Rocha, passando por Ofirney Sadala, a obra virou campo de batalha política e contábil — com verbas desaparecendo, aditivos contratuais nunca pagos e uso irregular de emendas parlamentares.

A Spinelli Serviços, última empresa contratada, chegou a pintar o interior, instalar portas e armários, mas não recebeu o pagamento completo e teve o contrato rescindido de forma unilateral neste ano. A prefeitura atribui o atraso à empresa; a empresa acusa o município de má fé e calote. Enquanto isso, o mato tomou conta da construção.

A Controladoria-Geral da União vistoriou a obra e ainda não concluiu o relatório. O Ministério Público investiga. E, mesmo sem prestação de contas clara, mais dinheiro está a caminho: em julho, o FNDE liberou novo repasse de R$ 642 mil para concluir os 17% restantes da obra — quase o mesmo valor que já foi pago à empresa anterior. A prefeitura, agora, vai começar tudo de novo: uma nova licitação será aberta.

Dez anos depois, Santana continua sem a creche. Mas tem um histórico milionário de promessas, desvios e abandono.

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