Contrato de obra de rodovia envolve empresa ligada ao suplente Breno Chaves dentro da SETRAP do governo Clécio Luís.
Uma reportagem publicada pelo jornal O Globo revelou um episódio que escancara como funciona, na prática, parte do jogo político em Brasília e que tem reflexos diretos no Amapá.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, enviou um ofício direcionado a ele mesmo solicitando a liberação de R$ 379 milhões em emendas, indicando inclusive contratos específicos que deveriam receber os recursos. O documento fazia parte de um movimento para atender exigências de transparência impostas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a identificação dos padrinhos políticos por trás das indicações de emendas.
Na prática, porém, especialistas ouvidos pela reportagem veem na manobra uma tentativa de driblar o controle da Corte, criando um registro formal sem alterar a lógica de funcionamento das chamadas emendas de bastidor.
O dinheiro e os aliados
Do total solicitado por Alcolumbre, 55% cerca de R$ 210,4 milhões foram direcionados ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, comandado por Waldez Góes, ministro indicado ao cargo justamente pelo senador amapaense.
Ou seja: o senador solicita a liberação, o ministério comandado por seu aliado executa e o dinheiro começa a circular.
Um roteiro que, para muitos observadores de Brasília, parece mais engenharia política do que política pública.
A obra e a empresa do suplente
Entre os contratos indicados no ofício está uma obra de revitalização de rodovia no Amapá, executada por uma empresa ligada a Breno Chaves, segundo suplente de Alcolumbre.
Os recursos para a obra foram liberados pela Codevasf, estatal vinculada ao ministério de Waldez Góes, e transferidos para a Secretaria de Transportes do Amapá (SETRAP), responsável pela contratação.
No comando do governo estadual está Clécio Luís, que se filiou ao União Brasil partido de Alcolumbre em janeiro, em movimento político ligado à disputa pela reeleição.
Obra problemática e pagamentos questionados
O empresário afirmou que o contrato da obra teria sido rescindido em julho de 2025, após fiscalização da Codevasf identificar problemas na execução, como uso de material inadequado e de baixa qualidade.
O detalhe curioso é que, segundo informações do próprio governo do Amapá, o último pagamento à empresa ocorreu em setembro de 2025, dois meses depois da data em que o contrato supostamente teria sido cancelado.
Ao todo, a SETRAP informou ter repassado R$ 8 milhões à empreiteira, mesmo com a obra apresentando execução de apenas 8,94% do total previsto.
O retrato de um sistema
Formalmente, os órgãos envolvidos afirmam que todo o processo seguiu os trâmites legais e licitatórios previstos na legislação.
Mas o episódio levanta um debate inevitável:
quando um senador envia um ofício para si mesmo, direciona recursos a um ministério comandado por seu aliado político e parte do dinheiro chega a contratos ligados a seu suplente, a pergunta que fica no ar é simples:
isso é gestão pública ou apenas mais um capítulo da velha engrenagem política brasileira funcionando a pleno vapor?
Enquanto isso, no Amapá, rodovias continuam esburacadas, obras seguem inacabadas e milhões de reais circulam entre gabinetes, ministérios e contratos que, muitas vezes, avançam bem mais no papel do que no asfalto.