O Ministério Público do Estado do Amapá (MP-AP), em conjunto com a Polícia Civil, deflagrou uma investigação sigilosa de alto escalão para desvendar um suposto e robusto esquema de corrupção incrustado na Secretaria de Estado de Infraestrutura (SEINF). O epicentro das apurações é o desvio de recursos públicos e o direcionamento ilegal de contratos nas obras do novo Hospital de Emergência de Macapá, uma promessa crucial para a saúde pública cujo valor supera a cifra de R$ 129 milhões.
No centro do furacão investigativo estão dois nomes de extrema confiança da cúpula do poder estadual: o secretário de Infraestrutura, John David Belique Covre, identificado como homem de confiança do governador Clécio Luís (SD), e o secretário adjunto e financeiro da pasta, Ivy Thiago Vasconcelos Amanajas, tido como braço direito do senador Davi Alcolumbre (UNIÃO). Juntos, eles comandam a secretaria que centraliza e aprova todas as licitações e contratos de obras do estado.
A Gênese da Investigação
De acordo com apurações, as investigações tiveram início a partir de denúncias anônimas e relatórios de inteligência que levaram a 2ª Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público a requisitar formalmente toda a documentação referente à medição e aos pagamentos executados na obra do hospital.
A suspeita dos promotores é de que servidores de alto escalão da SEINF, em conluio com um cartel de empresários, tenham praticado uma série de crimes, incluindo:
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Direcionamento de Edital: A alteração de regras em processos licitatórios para beneficiar empresas específicas previamente escolhidas.
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Conluio Empresarial: Empresas que atuam no setor de obras públicas teriam combinado lances entre si para garantir que o contrato fosse vencido por uma delas, mantendo a aparência de legalidade.
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Pagamento de Propina: Empresários pagariam vantagens indevidas a servidores para facilitar a liberação de medições de obra e, consequentemente, dos pagamentos milionários pelo estado.
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Desvio de Recursos Públicos: A suspeita mais grave é a de que o dinheiro público pago pela administração estadual não estaria sendo integralmente convertido em serviços executados, sendo parte desviado para o bolso dos investigados.
Obra Emblemática sob a Lupa
A construção do Hospital de Emergência de Macapá, projetado para desafogar o sistema de saúde da capital, tornou-se o caso mais emblemático sob a lupa dos investigadores. Apesar dos vultosos recursos já injetados – mais de R$ 129 milhões –, as obras no local seguem em ritmo extremamente lento e com avanço físico aquém do esperado. Para os promotores, essa lentidão injustificada é um forte indício de que os recursos podem estar sendo sistematicamente desviados, deixando a população sem um serviço de saúde essencial.
A trajetória de David Covre ganha destaque no quebra-cabeça montado pelo MP-AP. Antes de assumir o comando da SEINF no governo estadual, ele já comandava a Secretaria Municipal de Obras de Macapá durante a prefeitura do próprio Clécio Luís, o que, na visão dos investigadores, aprofundou os laços de confiança e a suposta blindagem política para operar o esquema.
Sigilo e Silêncio
O MP-AP e a Polícia Civil não se manifestaram oficialmente sobre prazos ou detalhes operacionais da investigação, mas fontes próximas ao caso confirmaram que os procedimentos estão em andamento e sob sigilo judicial.
Procuradas, as assessorias do Governo do Estado e da SEINF não se pronunciaram sobre as acusações até o fechamento desta matéria. A reportagem também tentou contato com os representantes dos senadores Randolfe Rodrigues e Davi Alcolumbre, mas não obteve retorno. O silêncio das autoridades investigadas contrasta com a movimentação nos gabinetes do MP, onde a peça de acusação pode estar sendo costurada nos bastidores. A população aguarda, enquanto a obra do hospital, símbolo de esperança, permanece como um canteiro de dúvidas.