Onde Foi Parar o Dinheiro? O Vazio de Gestão no Meio de Um Bilhão em Créditos no Governo Clécio Luís
Com R$ 1 bilhão em novos débitos e US$ 30 milhões do BID, estado vive paradoxo: rios de dinheiro entram, mas a máquina pública continua engessada e sem transparência.
Em menos de dois anos, o governo do Amapá, sob o comando do governador Clécio Luís, obteve autorização para duas operações de crédito de grande vulto. Em 2023, foram US$ 30 milhões (cerca de R$ 150 milhões na cotação atual) do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), aprovados pelo Senado Federal, com a destinação declarada de modernizar a administração tributária e fiscal do estado. Em 2024, a Assembleia Legislativa do Estado autorizou um empréstimo adicional de R$ 1 bilhão, elevando o endividamento estadual a um patamar inédito.
A justificativa para volumes tão expressivos de recursos sempre esteve atrelada à necessidade de investimentos em eficiência, tecnologia e infraestrutura administrativa, prometendo um novo patamar de gestão pública. No entanto, ao se fazer um balanço da aplicação desses recursos, o que se encontra é um descompasso alarmante entre o volume financeiro injetado e a realidade palpável no funcionamento do estado.
A Promessa e o Vazio Concreto
Passado o tempo necessário para a contratação, desembolso e início da execução, não há sinais visíveis da tal “modernização fiscal”. O sistema tributário amapaense não deu um salto de eficiência, a arrecadação não apresentou melhorias estruturais significativas e a máquina pública continua a operar com os mesmos gargalos históricos de desorganização, morosidade e falta de transparência.
A pergunta que ecoa nos corredores da administração pública, no legislativo e na sociedade é direta: onde foi parar todo esse dinheiro?
O governo não tem conseguido demonstrar de forma clara e acessível a aplicação desses recursos. Não há painéis de transparência detalhando a execução dos projetos financiados pelo BID, nem prestação de contas cirúrgica sobre a destinação dos R$ 1 bilhão autorizados. A população, por sua vez, não sente no dia a dia nenhuma melhoria correspondente ao monumental aumento da dívida pública estadual.
A Crise que não é Financeira, mas de Gestão
Esse cenário expõe uma verdade incômoda: o problema central do Amapá, neste momento, não parece ser falta de recursos. O estado conseguiu acessar volumes financeiros extraordinários em curto espaço de tempo. A crise é de gestão, execução e fiscalização.
Absorver bilhões sem entregar resultados mensuráveis transforma o crédito em mero aumento de passivos, hipotecando o futuro do estado sem construir um presente melhor. Politicamente, a situação desgasta a base de sustentação do governo, que se vê pressionada a explicar o paradoxo de ter mais dinheiro e menos eficiência.
O Silêncio e a Cobrança
A reportagem tentou contato com a Secretaria de Estado da Fazenda e com a Assessoria de Comunicação do Governo para obter detalhes sobre a execução dos recursos do BID e do empréstimo de R$ 1 bilhão, mas não recebeu retorno até o fechamento desta edição.
Enquanto isso, a Assembleia Legislativa, que autorizou parte significativa do endividamento, e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) têm o dever constitucional de acender o sinal de alerta e cobrar explicações detalhadas. A sociedade amapaense, principal credora dessa dívida, aguarda respostas. A questão deixou de ser técnica e se tornou, acima de tudo, uma questão de confiança na administração pública.