A crise desencadeada pelos investimentos da Amapá Previdência (Amprev) no Banco Master não é um ato solitário do diretor-presidente Jocildo Lemos. Documentos oficiais obtidos pela reportagem revelam que a gestão conta com apoio majoritário no Conselho Previdenciário para conduzir o processo de liquidação do banco, com participação de representantes do Poder Executivo, Tribunal de Justiça e outras instituições chave do estado.
A Portaria nº 236/2025, publicada no Diário Oficial do último dia 18 de novembro, formalizou a criação de um Grupo de Trabalho (GT) composto por conselheiros e diretores para “acompanhar e orientar decisões urgentes” relacionadas ao caso Master. A medida oficializa o que até então circulava em bastidores: Jocildo Lemos não atua sozinho e sua linha de ação tem respaldo institucional.
A Arquitetura do Apoio
O apoio à gestão é estrutural. Integram o Conselho Previdenciário para o biênio 2023-2025, representando o Poder Executivo, os seguintes nomes:
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Alberto Samuel Alcolumbre Tobelem (Titular)
Suplente: Roninaldo da Silva Gonçalves
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Jesus de Nazaré Almeida Vidal (Titular)
Suplente: Jorge da Silva Pires
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Thiago Lima Albuquerque (Titular)
Suplente: Paulo César Lemos de Oliveira
Além deles, o colegiado é completado por representantes do Tribunal de Justiça, Assembleia Legislativa, sindicatos e outros órgãos, formando um bloco coeso que sustenta as decisões da presidência da Amprev.
O Suplente de Peso e seu Passado Institucional
A lista, no entanto, reserva uma figura que destoa de qualquer discurso de tecnocracia e isenção: o suplente Rorinaldo da Silva Gonçalves.
Gonçalves não é um nome qualquer no tabuleiro político amapaense. É tio da esposa do senador Davi Alcolumbre (UNIÃO-AP), um dos principais articuladores políticos do estado, o que imediatamente adiciona um componente de influência familiar à sua nomeação.
Mas é seu histórico em cargos públicos que salta aos olhos. Rorinaldo foi diretor-presidente do DETRAN/AP, onde se tornou alvo de uma operação do Ministério Público. O desfecho de sua passagem pelo órgão foi a exoneração do cargo. Apesar dessa trajetória, ele agora está alocado como suplente no conselho que tem a missão de fiscalizar e zelar pelo patrimônio previdenciário de todo o estado.
Blindagem ou Fiscalização? A Responsabilidade é Coletiva
A composição do GT e do Conselho joga por terra a possibilidade de se isolar a responsabilidade pela crise na figura do diretor-presidente. A portaria oficializa que:
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As decisões críticas sobre o caso Master passam por instâncias colegiadas;
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Agentes com peso político e institucional participam ativamente do processo;
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O Poder Executivo estadual, através de seus representantes, manteve assento e, portanto, ingerência sobre as ações da autarquia.
A pergunta que se impõe é: se houve falha grave, negligência na análise de risco ou opção por investimento temerário, a responsabilidade é, em última instância, compartilhada por todo o conjunto que deveria agir como fiador dos recursos dos servidores e aposentados.
O Dilema Final
A crise do Banco Master colocou a Amprev sob os holofotes. Agora, a existência de um conselho amplamente alinhado à gestão e integrado por figuras com históricos polêmicos levanta um dúvida crucial: o Grupo de Trabalho terá a independência necessária para apurar eventuais responsabilidades internas pela crise?
Ou seu verdadeiro papel será o de institucionalizar uma blindagem coletiva, enquanto o prejuízo é administrado e explicado à sociedade? A credibilidade da Previdência estadual e a segurança dos cofres públicos dependem da resposta a esse questionamento.