Macapá (AP) – Uma investigação da Controladoria‑Geral da União (CGU) revela que a Instituto Nacional de Assistência, Trabalho, Oportunidade e Saúde (INATOS), registrada no Rio de Janeiro, foi beneficiada com R$ 34,5 milhões em emendas parlamentares entre 2020 e 2024.
A responsável legal pela entidade é a senhora Alice Maria Neves, de 72 anos, aposentada e residente em Vila Isabel, zona norte do Rio de Janeiro. Segundo vizinhos, ela “está aposentada há muitos anos” e nunca teria contribuído para o INSS.
Projeto no Amapá
O convênio em foco trata-se do programa denominado “Conexão Norte”, de cerca de R$ 19,2 milhões, destinado à criação de 81 núcleos esportivos em dez municípios do Amapá para atender aproximadamente 8 000 beneficiários (crianças, adolescentes, adultos e idosos) com atividades como futebol, jiu-jitsu, capoeira, vôlei, dança e musculação.
A CGU apontou que, embora o estatuto da ONG e seu CNAE estivessem compatíveis com o objeto do projeto, não há evidências de que a entidade possuísse estrutura física ou operacional para executar o programa em outro estado, fora do Rio de Janeiro.
Em visitas realizadas em 13 de agosto de 2025, auditores constataram que os dois endereços declarados — ambos em Vila Isabel — comportavam apenas atividades administrativas ou teóricas, sem instalações próprias para execução de projeto amplo de mobilização esportiva.
Outras suspeitas e ligações
A matéria revela que o INATOS possui outros convênios: cerca de R$ 3 milhões por emenda do deputado Carlos Jordy (PL-RJ) e R$ 6,5 milhões por emenda do deputado Juninho do Pneu (União-RJ). Ambos projetos, segundo apuração, não apresentam comprovação satisfatória de execução.
Além disso, há indícios de que o advogado Carlos Eduardo Gonçalves (conhecido como “Cady”) atua juridicamente para o INATOS e também para a ONG IPGIAS, outra entidade investigada pela CGU, o que sugere rede de associações entre organizações com convênios públicos.
Posicionamento da ONG
Em nota, o INATOS afirmou que “as informações sobre os convênios com o governo federal são falsas ou equivocadas”. Disse que o projeto “Caminho Ativo”, indicado por Juninho do Pneu, está “em fase de estruturação”, com pagamento parcial de R$ 945 mil para montagem de núcleos e entrega de materiais. Quanto ao convênio de R$ 19 milhões no Amapá, a entidade alegou que ainda não teve recursos liberados e não respondeu aos questionamentos da CGU sobre a prestação de contas.
Relevância para o Amapá
Para o estado do Amapá, que tem histórico de fragilidade institucional e grande dependência de recursos federais, esses indícios levantam sérias questões sobre a efetividade da aplicação de recursos e sobre transparência nos processos de escolha e acompanhamento de entidades executoras. A eventual incapacidade de execução compromete não apenas o resultado social esperado (núcleos esportivos, atividades para diferentes faixas etárias) mas também gera desperdício ou mau uso de verba pública.
Considerações finais
A reportagem destaca uma aparente incongruência entre o perfil da responsável pela ONG — aposentada e residente no Rio sem histórico de atuação na Amazônia — e a magnitude e natureza dos convênios firmados para atuação no Amapá. A situação exige atenção dos órgãos de controle, além de uma reflexão sobre os mecanismos de fiscalização e regulação dos convênios com organizações não-governamentais. Se comprovadas, irregularidades podem gerar responsabilização administrativa, civil e penal dos envolvidos.