Uma cena de horror marcou a manhã desta quarta-feira (29) no Complexo do Alemão. Moradores transportaram e alinharam os corpos de ao menos 65 pessoas na Praça São Lucas, em um ato que evidencia a letalidade de uma megaoperação policial deflagrada na terça-feira (28). Com esses novos óbitos, que ainda não foram contabilizados pelo governo do estado, o número total de mortos chega a 132 tornando-se a operação mais letal da história do Rio.
Os corpos foram retirados por moradores da mata da Vacaria, na Serra da Misericórdia, local onde os confrontos entre policiais e traficantes foram mais intensos. Com o auxílio de caminhonetes, os cadáveres foram levados para a praça ao longo da madrugada. Fotografias obtidas pela reportagem mostram uma fileira de corpos cobertos por lençóis e cobertores sobre o asfalto da comunidade.
O clima no local é de profunda tristeza e consternação. Familiares e moradores se aproximavam dos mortos, levantando os panos que os cobriam para tentar reconhecer os rostos. Dezenas de pessoas observavam a cena, muitos visivelmente abalados, limpando lágrimas. Em um momento coletivo de dor, o grupo reunido na praça rezou um Pai-Nosso.
“Como pode destruir tantas famílias, tantas vidas? E ficar por isso mesmo?”, desabafou uma mãe, enquanto acariciava o rosto do filho morto, em depoimento ao GLOBO. Muitos dos corpos apresentavam ferimentos de bala, e alguns estavam com o rosto desfigurado.
ONU “horrorizada” e repercussão política
A Organização das Nações Unidas (ONU) emitiu uma nota através de sua rede social X, na qual se declarou “horrorizada” com a operação. O Escritório de Direitos Humanos da instituição pediu investigações “rápidas e eficazes” sobre o caso, lembrando às autoridades brasileiras de suas obrigações sob o direito internacional.
“Esta operação mortal reforça a tendência de consequências letais extremas das operações policiais nas comunidades marginalizadas do Brasil”, diz trecho da publicação.
Em resposta aos acontecimentos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reuniu com o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, para discutir a operação. O ministro informou que não recebeu nenhum pedido de ajuda do governador do Rio, Cláudio Castro (PL), para a ação.
Balanço oficial e objetivos da operação
O balanço oficial do governo do estado, até a última atualização, contabilizava 64 mortos. A Secretaria de Segurança Pública afirmou que a operação foi minuciosamente planejada com antecedência e teve como objetivo cumprir mandados de prisão contra integrantes de uma facção criminosa, sendo 30 deles de fora do Rio, que estariam escondidos em favelas.
Segundo o Palácio Guanabara, entre os mortos confirmados oficialmente estão quatro policiais civis, três policiais militares, dois homens apontados como traficantes vindos da Bahia e quatro moradores. A operação também teve vítimas colaterais: um homem em situação de rua, baleado nas costas; uma mulher que estava em uma academia e já recebeu alta; e um homem que estava em um ferro-velho.
Até o momento, a operação resultou na prisão de 81 pessoas e na apreensão de 75 fuzis, duas pistolas e nove motos. Pelo menos cinco Unidades de Atenção Primária foram fechadas na região, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, agravando o cenário para os moradores.