Crise na Saúde do Amapá: Gestão Fragilizada, Descontinuidade e Rota para a Privatização
Seguindo uma sequência de decisões contraditórias e sem planejamento, governo estadual esvazia rede pública, desperdiça recursos e cogita entregar gestão à iniciativa privada em meio à crise financeira.
Macapá, AP – A saúde pública no Amapá enfrenta um dos seus períodos mais críticos, mergulhada em uma instabilidade profunda que ameaça o funcionamento de hospitais e a assistência à população. A raiz do problema, de acordo com análise da gestão atual, não é a falta de recursos, mas sim a desorganização administrativa, a ausência de planejamento estratégico e uma sucessão de movimentos contraditórios que têm enfraquecido sistematicamente a rede estadual.
O cenário de descontrole fica evidente com os sucessivos alertas de suspensão de serviços emitidos por fornecedores essenciais, como empresas de lavanderia, manutenção e alimentação, devido a atrasos nos pagamentos por parte do Estado. Essa situação expõe uma grave desresponsabilização com a base que sustenta o funcionamento prático das unidades de saúde, colocando em risco a assistência direta à população.
Enquanto serviços básicos são terceirizados e sofrem com a inadimplência, a estratégia de longo prazo do governo Clécio Luís (Solidariedade) parece aprofundar o caminho da privatização. Especialistas e gestores ouvidos pelo contexto apontam que a opção por terceirizar o que poderia ser internalizado – como lavanderia, nutrição e manutenção – renuncia à autonomia do sistema e cria um ciclo vicioso de dependência e custos crescentes, uma vez que o setor privado necessariamente incorpora a margem de lucro aos serviços.
A “solução” que virou problema: o caso da Fundação de Saúde
Um dos capítulos mais emblemáticos dessa crise é a trajetória da Fundação de Saúde. Criada há três anos com o discurso de modernizar a gestão, a fundação consumiu altos investimentos públicos para a estruturação de equipes, contratos e toda uma arquitetura administrativa. No entanto, uma portaria recente do governo determinou a devolução do Anexo do Hospital de Emergência (HE) para a administração direta da Secretaria de Estado da Saúde (SESA).
A mudança brusca levanta questões sobre o desperdício de recursos públicos e a falta de um projeto consistente. “Como justificar três anos de custeio de uma fundação, com estruturas criadas, contratos, equipes mobilizadas, para que agora se retome o modelo anterior, sem que os problemas tenham sido efetivamente solucionados?”, questiona um gestor de carreira que preferiu não se identificar.
A contradição se aprofunda. Enquanto desmonta a fundação por uma porta, a Secretaria de Saúde estuda, pela outra, a extinção total do modelo e a transferência da administração hospitalar para a iniciativa privada. A medida é considerada especialmente contraditória no momento em que o Estado enfrenta uma severa crise financeira, levantando dúvidas sobre a viabilidade e os reais objetivos do modelo de Parceria Público-Privada (PPP) em discussão.
Sequência de contradições define a gestão
O que se observa é uma sucessão de movimentos desconexos: cria-se uma fundação e investe-se nela, para depois esvaziá-la; enfraquece-se a rede própria ao terceirizar serviços básicos; e, como solução final, cogita-se entregar a gestão do sistema aos privados.
“Isso não é modernização da saúde: é descontinuidade, improviso e falta de responsabilidade com o dinheiro público e com a vida das pessoas que dependem do SUS”, afirma uma fonte do setor.
A conclusão que se impõe é a de que o governo amapaense opera sem uma bússola clara para a saúde. O Amapá não pode mais ser refém de gestões que experimentam modelos, interrompem processos e falham em garantir o básico. A população precisa de um sistema público forte e estável, o que exige, acima de tudo, clareza de rumo, planejamento responsável e decisões firmes que resolvam os problemas históricos, em vez de ampliá-los.