O absurdo no Hospital Marco Zero: trabalhadores da saúde tratados como descartáveis
Um escândalo silencioso corrói os bastidores do Hospital Marco Zero, antigo Unimed, em Macapá. A unidade, que mantém contrato com o governo de Clécio Luís para atender pacientes do SUS em leitos de UTI, vive um cenário de descaso com parte fundamental da assistência: os profissionais da equipe multiprofissional — assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, odontólogos e nutricionistas.
Desde maio, os salários destes trabalhadores começaram a atrasar. Hoje, já acumulam dois meses sem pagamento: julho e agosto ficaram para trás, e setembro, pelo que tudo indica, só será quitado em 2026 — isso se houver boa vontade política. O diretor financeiro da unidade, Joel Caldeira, alega que aguarda repasses do governo. Enquanto o dinheiro não chega, quem paga a conta é justamente quem sustenta o atendimento aos pacientes.
O relato de trabalhadores revela a crueldade do cenário:
“Não temos direito a refeições. Eles não se importam se temos como ir trabalhar, só querem que estejamos lá.”
“É um trabalho escravo, porque até o valor do salário é baixo.”
“Por que aceitamos isso? Porque não temos opção de trabalhar em outro lugar.”
O contraste é revoltante. Médicos recebem em dia cada plantão realizado, a equipe de enfermagem também está com salários garantidos. Mas a equipe multiprofissional, que garante qualidade de vida, reabilitação e acolhimento aos pacientes, é deixada de lado como se fosse irrelevante.
Essa desigualdade salarial expõe a hipocrisia de um sistema de saúde que se alimenta do discurso de “humanização”, mas trata seus próprios profissionais com desumanidade. Como explicar que justamente os trabalhadores responsáveis por dar suporte físico, psicológico e social aos pacientes estejam sendo submetidos a atrasos, fome e humilhação?
Mais uma vez, a política da omissão no Amapá se repete: governo, hospital e Justiça do Trabalho parecem fechar os olhos. Enquanto isso, profissionais adoecem, famílias passam necessidade e a população, que depende do SUS, paga pela incompetência.
O Hospital Marco Zero e o governo Clécio Luís precisam ser cobrados. Não dá mais para aceitar que vidas sejam salvas às custas da exploração de quem dedica a própria para cuidar dos outros.