Amapá: cada vez mais o epicentro da letalidade policial no Brasil
No Amapá, a presença do Estado mata em proporção alarmante: mais de um terço das mortes violentas intencionais no estado resultam de ações policiais. Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2025 com base em dados de 2024, 36 % das vítimas de homicídios no Amapá foram mortas por agentes da lei — um salto brutal desde os 7 % registrados em 2015 .
O estado lidera em letalidade policial no país, com índice de 45,1 mortes por 100 mil habitantes por intervenções policiais, cinco vezes a média nacional (8,2) .
Fatores que explicam o cenário:
Estratégico ponto de entrada do crime organizado, o Amapá é rota de tráfico de drogas na fronteira com a Guiana Francesa e pela foz do Amazonas o que intensifica confrontos com a polícia .
Ações policiais têm sido conduzidas com alto grau de agressividade e pouca supervisão, sobretudo em cidades do interior onde, em municípios como Porto Grande, 100 % das mortes violentas foram provocadas por policiais .
A combinação de vulnerabilidade social extrema, ausência de políticas preventivas e modelos de segurança centrados no confronto cria um ambiente propício ao uso excessivo da força .
Perfil das vítimas
Jovens negros geralmente entre 18 e 29 anos — moradores de periferias são os mais atingidos. Em números nacionais, mais de 79 % das vítimas de intervenção policial são negras, e a grande maioria ocorre em via pública .
O alerta do Anuário
Os pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirmam que quando as mortes por policiais ultrapassam 10 % dos homicídios totais, isso sinaliza uso desproporcional da força. No Amapá, essa proporção atinge 400 % do patamar considerado seguro e aponta para um padrão institucional preocupante .
Conclusão
O Amapá não só aparece como o estado com maior letalidade policial no Brasil, mas sua letalidade corresponde a uma fatia incomum das mortes violentas, levantando questões urgentes sobre o controle do uso da força e a estrutura das políticas de segurança pública locais. A combinação de presença do crime organizado, vulnerabilidade social e ausência de modelos alternativos reforça a urgência de uma mudança profunda no paradigma de atuação policial no estado.