A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público Estadual (MPE/AP) desvendaram um esquema que escancara o descaso na gestão da saúde pública no Amapá. Na manhã desta terça-feira (15/07), a Operação Sinecura cumpriu seis mandados de busca e apreensão para investigar um suposto esquema criminoso envolvendo profissionais de saúde que, mesmo recebendo pelos plantões, não compareciam aos hospitais, deixando a população desassistida enquanto viajavam ou trabalhavam em outros estados – e até mesmo no exterior.
A FARRA DOS PLANTÕES FANTASMAS
A investigação revelou que médicos e outros profissionais fraudavam escalas desde abril de 2022, com registros de plantões em Macapá enquanto estavam em Belém (PA), Santa Catarina ou até no Chile. Um dos investigados, residente em Concórdia (SC), só veio ao Amapá uma única vez em dois anos, mas constava em dezenas de escalas. Outra profissional, de Belém, chegou a Macapá em um voo às 13h50 e embarcou de volta às 18h10 – no mesmo dia em que teria um plantão noturno.
Durante as buscas, a PF apreendeu R$ 138 mil em espécie, parte escondida na casa de um dos investigados. Os valores podem ser apenas a ponta do iceberg de um esquema que drena recursos públicos enquanto hospitais enfrentam falta de médicos e superlotação.
PROCURADORIA “DORME NO PONTO”?
Enquanto a PF age, a Procuradoria do Estado do Amapá, órgão responsável por fiscalizar contratos e gastos públicos, parece ter fechado os olhos para o escândalo. A falta de auditorias rigorosas permitiu que o esquema se perpetuasse por anos, sob a gestão do governador Clecio Luís e do ex- governador Waldez Góes, que agora enfrentam mais uma crise na saúde – setor que já acumula denúncias de má gestão e desvios.
CRIMES E IMPUNIDADE
Os envolvidos podem responder por peculato, falsidade ideológica e associação criminosa, mas a pergunta que fica é: quem mais sabia? Enquanto a população sofre com filas e atendimento negligenciado, a farra dos plantões fantasmas prosperou sob o silêncio cúmplice de quem deveria fiscalizar.
A Operação Sinecura (do latim “sem cuidado”) não poderia ter nome mais apropriado: um retrato do descaso que virou regra na saúde pública do Amapá.
Com informações da Polícia Federal e apuração jornalística.