No Amapá, a contagem regressiva para o fim do Batalhão de Policiamento de Trânsito (BPTRAN) começou não após debate público ou análise técnica, mas por meio de um dispositivo inserido de forma pouco transparente na nova Lei de Organização Básica da Polícia Militar, aprovada pela Assembleia Legislativa. A mudança, que passou despercebida por muitos, retirou da Casa do povo a atribuição de criar ou extinguir batalhões, concentrando tal poder exclusivamente nas mãos do governador Clécio Luis.
A primeira medida concreta sob essa nova prerrogativa foi anunciada nesta semana: o BPTRAN será desativado em nove dias. Os policiais do batalhão receberam a ordem para desocupar o prédio, que será entregue à ROTAM (Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas), unidade frequentemente associada ao governador. A extinção ocorre em um momento de alta violência no trânsito e diante de apelos da sociedade civil pela manutenção da unidade especializada.
Críticos do governo já apelidaram Clécio Luis de “Trump do Amapá”, em referência a um estilo de gestão que privilegia decisões unilaterais e centralizadoras. O movimento é visto como mais um capítulo de uma estratégia política que usa a Segurança Pública como palanque. Ao desmontar uma estrutura consagrada responsável por fiscalização, atendimento a acidentes e projetos sociais na comunidade do São Lázaro , o governo cria um vácuo operacional que deve agravar a sensação de insegurança e o caos no trânsito estadual.
Além do impacto social, a medida provoca racha interno na PM. Há relatos de crescente tensão entre policiais do BPTRAN e integrantes do BOPE/ROTAM, esta última tratada como prioridade na gestão Clécio Luis. A extinção do batalhão de trânsito, portanto, não se resume a uma reorganização administrativa: é um ato de força que coloca em risco a segurança viária, desmonta políticas comunitárias e acirra conflitos dentro da própria corporação, enquanto consolida um modelo de poder cada vez mais pessoal e menos republicano.
O governo alega que a medida integra um processo de modernização e que o policiamento de trânsito continuará a ser realizado por outras unidades. No entanto, a falta de transparência, o timing político e o desprezo pelo clamor popular levantam questões sobre o real objetivo: servir à população ou blindar politicamente o governador às vésperas de um novo ciclo eleitoral?
Enquanto os dias do BPTRAN se esgotam, o Amapá se pergunta quem, de fato, estará no comando e a que custo.