A cena se repete com uma crueza que envergonha qualquer resquício de decência: famílias humildes, esquecidas pelo poder público, erguem com as próprias mãos o teto que o Estado lhes negou. Sua luta é por um direito básico, a moradia, e seu sofrimento, real e concreto. No entanto, para uma certa política, esse sofrimento não é um problema a ser resolvido, mas um palco a ser ocupado. Usar a miséria alheia como instrumento de campanha não é apenas imoral; é uma forma de violência que perpetua a negligência.
As comunidades da Terra Prometida e da Nova Aliança são o retrato de um fracasso histórico. Elas não surgiram por capricho, mas como resposta desesperada à inércia do poder. Seus moradores não pediram privilégios; exigiram, com unhas e dentes, a realização de um dever constitucional elementar. Enquanto eles suavam na construção de seus barracos, o Estado permaneceu distante. Agora, quando a luta ganha visibilidade, figuras como o governador Clécio Luís e o senador Randolfe Rodrigues aparecem para transformar um drama humano em espetáculo eleitoral.
Esta não é solidariedade. É oportunismo travestido de discurso fácil. Apropriar-se da dor coletiva para projetar uma imagem de “defensor do povo” é uma tática cínica, que desvia o foco do que realmente importa: soluções estruturais. O povo do Amapá não precisa de salvadores da pátria em momento de crise midiática. Precisa de políticas públicas sérias, de planejamento urbano, de regularização fundiária e de um compromisso que vá além do ciclo eleitoral.
A transformação de tragédias sociais em palanque é a marca registrada de uma política que já caducou. Ela se alimenta do conflito e da penúria, oferecendo como remédio apenas retórica. Enquanto isso, as causas profundas do problema a desigualdade, a burocracia, a corrupção e a cultura do clientelismo permanecem intocadas. O discurso emocionado diante das câmeras não põe tijolo, não assina escritura, não oferece urbanização.
O Amapá, e o Brasil, precisam urgentemente de uma nova gramática política, fundada na responsabilidade, no respeito à inteligência do cidadão e na execução técnica e continuada de políticas de Estado. O momento é de exigir projetos, não poses; de cobrar ações, não aplausos. O tempo da política que usa a dor como cenário precisa findar. A dignidade humana merece mais do que ser usada como degrau para ambições pessoais. Ela deve ser, sempre, o ponto de partida e o destino final de qualquer governo que se pretenda legítimo.