O Porto Seguro do STF: Como ministros usam o poder para blindar a si e aos seus da investigação do Banco Master

Créditos : https://oglobo.globo.com/blogs/malu-gaspar/coluna/2025/12/revelacoes-sobre-ministros-afundam-supremo-na-crise-do-master.ghtml

A decisão do ministro Dias Toffoli, em novembro 2025, de decretar sigilo absoluto e atrair para o Supremo Tribunal Federal (STF) as investigações sobre o Banco Master foi recebida em Brasília como um balde de água fria. O inquérito, que começou com uma fraude de R$ 12,2 bilhões contra o BRB, ameaçava se espalhar por um emaranhado de políticos e empresários. A corte suprema parecia ter se tornado um porto seguro, paralisando oitivas, novos inquéritos e perícias da Polícia Federal.

A blindagem, no entanto, mostrou-se falha de maneira espetacular. E os primeiros atingidos não foram os suspeitos no Congresso, mas os próprios ocupantes da cadeira mais alta da Justiça brasileira. Revelações sucessivas expuseram um nível de promiscuidade com os investigados que vai muito além das suspeitas de parcialidade, mergulhando o STF em sua pior crise de credibilidade em anos.

A primeira rachadura veio com a notícia de que o próprio Toffoli viajou para o Peru, horas antes de decretar o sigilo, no jato de um empresário amigo do advogado de um dos alvos da operação, para assistir à final da Libertadores. A imagem do ministro em viagem de lazer com um intermediário do caso que ele mesmo iria “blindar” jogou por terra qualquer narrativa de neutralidade.

O Contrato que Calou a Defesa

Se a ação de Toffoli causou espanto, a informação que veio a seguir gerou constrangimento. Já era sabido que o escritório da mulher e dos filhos do ministro Alexandre de Moraes, o Barci de Moraes Associados, prestava serviços ao Banco Master. O que se ignorava era a dimensão astronômica do negócio: R$ 3,6 milhões por mês, em um contrato de três anos, totalizando R$ 129,6 milhões.

O objeto do contrato é tão amplo quanto o valor. Inclui a defesa judicial do banco e de seus controladores e, de forma especialmente sensível, o “acompanhamento de projetos de lei de interesse” do Master no Congresso Nacional. Que projetos são esses e qual o tipo de “acompanhamento” prestado por um escritório familiar de um ministro do STF permanece um mistério, já que Moraes e sua esposa, Viviane, mantêm silêncio absoluto.

Especialistas consultados pela reportagem são unânimes: o valor está estratosférico, muito acima dos honorários praticados até mesmo pelas maiores estrelas do mercado advocatício. A quantia levanta questões óbvias sobre qual serviço justificaria tal remuneração e, principalmente, sobre o conflito de interesses insuperável que cria para um ministro que pode, a qualquer momento, julgar ações envolvendo o banco.

A Justificativa que não Convence e o Silêncio que Denuncia

Defensores dos ministros argumentam que não há ilegalidade: não há lei que proíba viagens em jatos particulares, e parentes de magistrados têm o direito de exercer a advocacia. É um argumento formalista, que ignora completamente a ética e a aparência de impartialidade exigidas de suas funções. O próprio STF, em uma autorregulação permissiva, liberou seus membros a julgar casos de escritórios de familiares.

Mas se a defesa fosse sólida, encontraria eco público. O que se vê é um silêncio pesado. Até mesmo a narrativa alarmista de que investigar o Master seria “ressuscitar o bolsonarismo” perdeu força. O constrangimento dentro do plenário do Supremo, segundo fontes ouvidas, “só não é maior que o pavor do que ainda pode vir à tona”.

A Esperança na PGR e o Estrago Já Feito

A nova tábua de salvação para Toffoli, Moraes e seus aliados, como o ministro Gilmar Mendes, é o procurador-geral da República, Paulo Gonet. A expectativa é que ele mantenha o caso no STF, endosse o sigilo e não avance com vigor nas investigações. A esperança não é infundada: Moraes foi um dos principais padrinho da indicação de Gonet ao cargo.

Mesmo que essa manobra tenha sucesso, analistas políticos e juristas avaliam que o estrago já é irreversível. “Os requintes de promiscuidade com o Master são o coroamento de uma degradação que vem de longe”, avalia um constitucionalista que preferiu não se identificar. “Resulta da simbiose entre a onipotência alienada dos ministros e a conivência de setores da sociedade que temem represálias.”

O temor à forma agressiva como Moraes age contra críticos faz com que muitas vozes influentes prefira m o debate privado ao público. Mas a conversa em gabinetes, restaurantes e corredores de poder é uma só: o STF, ao se embrenhar na mesma “geleia moral” dos centrões que tanto critica, desmoralizou a si próprio.

A Encruzilhada Histórica

A escolha que se coloca para os ministros agora transcende o destino do inquérito do Master. É uma decisão sobre o futuro da Corte. Eles podem começar a aceitar que não são intocáveis e que devem prestar contas à sociedade, ou podem seguir na cartilha da autopreservação a qualquer custo.

Essa última rota, advertem observadores, os levará a um território perigoso. Como resumiu de forma crua o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) na CPI do Crime Organizado: “Este é um país que já teve presidente preso, já teve ministro [de Estado] preso, senador preso, deputado preso, prefeito, vereador, mas ainda não teve ministros de tribunais superiores. E me parece que esse momento se avizinha.”

O aviso está dado. A credibilidade do STF, pilar fundamental da democracia, já está sob escombros. Resta saber se seus ministros ajudarão a reconstruí-la ou se serão soterrados por ela.

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