O Amapá ficou na última posição entre os 26 estados no ranking da Transparência Internacional, que apontou o estado como o que mais esconde onde gasta.

Enquanto recebe centenas de milhões em recursos federais, estado falha grotescamente em prestar contas à sociedade, evidenciando um cenário de total opacidade na gestão do dinheiro público.

Um retrato cru da contradição e da má gestão pública no Brasil: o Amapá, estado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, foi eleito o campeão nacional da opacidade. No mesmo momento em que nada em um mar de emendas parlamentares, o estado é o pior colocado no Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP) de 2025, da renomada ONG Transparência Internacional. É a prova viva de que volume de recursos não tem qualquer relação com transparência ou bom governo.

A situação é escandalosa. Em 2024, a União despejou a astronômica quantia de R$ 718,2 milhões no Amapá, o que equivale a R$ 890,52 para cada habitante. Neste ano, outros R$ 314 milhões já foram empenhados. Enquanto isso, São Paulo, por exemplo, recebeu apenas R$ 72,57 por pessoa. A pergunta que não cala é: para onde vai tanto dinheiro, se o estado é justamente o que menos informa?

A resposta parece óbvia nas entrelinhas do relatório. O Amapá não apenas esconde dados, como o faz de forma flagrantemente incompetente. Com uma nota miserável de 46,9 pontos em 100, o estado afunda nas profundezas do ranking, ostentando deficiências gravíssimas na divulgação de informações sobre obras públicas e, pasmem, sobre as próprias emendas parlamentares que tanto recebe.

A Farsa da Prestação de Contas

O estudo expõe um sistema podre de omissão. O Amapá é um dos estados que não oferecem informações completas sobre as emendas federais. Pior: é um dos que sequer disponibiliza os planos de trabalho das polêmicas “emendas PIX”, ignorando descaradamente uma determinação legal do ministro do STF, Flávio Dino. Isso não é mera falha administrativa; é um ato de desrespeito à lei e à população.

No quesito “Participação”, o desempenho amapaense é um deboche: apenas 15 pontos. Em outras palavras, o cidadão é completamente excluído do processo de fiscalização. Não há consultas, não há audiências públicas, não há qualquer resquício de vontade de incluir a sociedade no acompanhamento do que é, por direito, dela.

Mas o escândalo não para por aí. Na dimensão “Legal”, que avalia o cumprimento de normas e leis de transparência, o Amapá atingiu a marca vergonhosa de apenas 10 pontos. É a institucionalização da opacidade.

A Obra que Ninguém Vê

E como ficam as obras, principal destino desses recursos? No Amapá, a população simplesmente não tem como saber. O estado está entre a esmagadora maioria que não divulga informações básicas, como localização exata, percentual de execução, motivos para atrasos ou paralisações, e muito menos registros fotográficos que comprovem que o serviço foi realizado. É o governo fantasma, que gasta sem mostrar o resultado.

Vontade Política: Um Bem Ausente

O relatório joga um balde de água fria na desculpa da falta de capacidade técnica. Após receberem os resultados preliminares, 26 estados promoveram quase 500 melhorias imediatas. O engajamento geral prova que, quando há vontade política, a transparência avança. A inércia do Amapá, portanto, não é acidental; é uma escolha.

O caso do Amapá não é apenas um dado estatístico. É a crônica de um desgoverno que se beneficia das sombras. Enquanto a torneira de recursos federais, convenientemente administrada pela alta cúpula do poder, permanece aberta, a cortina da transparência permanece hermeticamente fechada. É um sistema perfeito para quem quer gastar sem ser incomodado por perguntas inconvenientes.

Como destacou Renato Morgado, da Transparência Internacional, garantir transparência é “urgente para fortalecer o controle social e proteger o interesse público”. No Amapá, o controle social foi substituído por um muro de silêncio, e o interesse público parece ser o grande ausente nessa equação. O estado, que deveria ser um exemplo por abrigar uma das lideranças mais poderosas do Congresso, transformou-se no epicentro nacional da opacidade.

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