Asfalto, Pontes e Poder: o Império do Grupo da Harmonia no Amapá sob Investigação Federal
DNIT, Codevasf e Setrap estão no centro de apurações que envolvem contratos milionários com suspeitas de fraudes, direcionamento e conluio entre empresas e agentes públicos aliados do chamado “Grupo da Harmonia”.
Uma poderosa engrenagem de contratos, obras e interesses está na mira das autoridades federais e estaduais no Amapá. A Polícia Federal, a Controladoria-Geral da União (CGU), o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado investigam uma série de contratos financiados com recursos públicos para pavimentação asfáltica, construção de pontes e obras de infraestrutura em rodovias, estradas vicinais e áreas urbanas de diversos municípios do estado.
O eixo central dessas investigações gira em torno do chamado Grupo da Harmonia, uma articulação político-empresarial que, segundo fontes dos órgãos de controle, mantém tentáculos em órgãos estratégicos como o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) e a Setrap (Secretaria de Estado de Transportes do Amapá).
As suspeitas envolvem irregularidades em processos licitatórios, direcionamento de contratos, formação de cartel entre empresas e conluios com servidores públicos em diversos níveis — estaduais e municipais. O modelo, segundo apurações preliminares, operaria com empresas de fachada ou de pequeno porte, criadas ou compradas para disputar editais com cartas marcadas, principalmente em prefeituras aliadas ao grupo político investigado.
Documentos apreendidos, e-mails e movimentações bancárias estão sendo analisados para identificar o rastro do dinheiro e o grau de envolvimento de agentes públicos. Em algumas ações recentes da PF no estado, armas de grosso calibre e grandes quantidades de dinheiro em espécie foram apreendidas, reforçando a gravidade do esquema.
Para investigadores, a indústria do asfalto e da construção civil no Amapá tornou-se um dos principais instrumentos de dominação e financiamento político. E o Grupo da Harmonia, segundo os bastidores, é hoje o maior beneficiário desse sistema, operando com influência no Congresso Nacional, governo estadual e em boa parte das prefeituras.
Enquanto as obras seguem a passos lentos, incompletas ou superfaturadas, os contratos continuam sendo assinados e os recursos liberados. A população, que deveria ser a beneficiária final desses investimentos, segue enfrentando estradas esburacadas, pontes improvisadas e um verão repleto de poeira, lama e promessas não cumpridas.
As investigações seguem em sigilo, mas fontes ouvidas pela reportagem indicam que novas fases de operações podem ocorrer a qualquer momento.